Movimento Corpo Livre encoraja mulheres a auto aceitação
- Jaciana Bianck

- 24 de nov. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de dez. de 2020
A pressão estética acentua a busca excessiva pelo corpo perfeito e colabora no desenvolvimento de uma baixa autoestima

Criadora de conteúdo Juliana Oliveira — Fotos: Instagram/Reprodução
A busca pelo corpo perfeito, juntamente com a pressão estética, começa cada dia mais cedo. Segundo uma pesquisa realizada pela organização britânica Girlguiding, em 2016, meninas de sete anos já sentem vergonha da própria aparência. Uma em cada quatro jovens entre sete e dez anos afirma que se sente pressionada a ter um corpo “perfeito”. Mais de um terço dessas meninas ainda ressalta que foram levadas a acreditar que a aparência era seu atributo mais importante e 38% acham que “não são bonitas o suficiente”.
A criadora de conteúdo e influencer Alessandra Rameth afirma isso quando lembra da sua infância “Olhando minhas fotos da infância, eu percebo que não era uma criança gorda, só não estava no padrão de uma criança magra, mas me chamavam de gorda e eu sofria muito na escola com os comentários”.
A psicóloga e especialista em gestalt-terapia, Flávia Lins, aponta que a cobrança excessiva e a comparação com o outro são fatores que podem partir tanto do próprio indivíduo, como dos familiares, amigos ou pessoas próximas. Foi o que ocorreu com a geóloga, criadora de conteúdo e influencer Juliana Oliveira, que afirma nunca ter sofrido pressão familiar com relação a sua aparência, porém foi a partir da conivência com os familiares de um antigo namorado que as críticas surgiram e começaram a afetá-la.
“As pessoas da família dele sempre falavam do meu corpo, faziam comentários como “Aí nossa vai comer de novo?” ou “Bota aqui o brigadeiro para Juliana, porque ela gosta e gordo gosta de doce”, e isso sim gerou uma questão muito pesada para mim. Logo eu comecei a achar que meu braço era gordo demais, que as minhas estrias já não me pertenciam de tanto ouvir aquelas pessoas negativando meu ser”, relatou Juliana durante entrevista.
Assim como Juliana, devido essa opressão, muitas outras mulheres passam a desenvolver uma baixa autoestima e criam uma busca contínua e excessiva pelo padrão de corpo perfeito instituído pela sociedade. Segundo a psicóloga Flávia Lins, as consequências podem ser ainda mais graves, como o desenvolvimento de transtornos alimentares, automutilação, ansiedade generalizada, depressão, entre outros problemas.
Hipersexualização da mulher preta
Outro fator que influencia na autoestima feminina é objetificação e sexualização de seus corpos. Mas quando falamos de mulheres pretas, a questão se acentua, pois existe uma hipersexualização e um estereótipo propagado pelos meios de comunicação, que afetam diretamente na relação das mesmas com seus corpos.
Juliana relata: “Eu como mulher preta sei que ao postar uma foto de biquíni, lingerie ou algo mais sensual vai fazer com que empresas, ou até mesmo as próprias pessoas criem um estereótipo em cima daquilo. Uma mulher branca usando biquíni em uma rede social ou na rua é vista de uma forma completamente diferente de uma mulher preta. Do mesmo modo existe uma diferença entre você ser uma mulher preta gorda e você é uma mulher branca gorda”.
Ela ainda explica os motivos de não postar esse tipo de conteúdo em suas redes sociais “Eu sei que no dia que eu começar a postar mais fotos seminua, de biquíni ou de lingerie, a minha interação e meus likes vão aumentar. Mas eu vou deixar de ser reconhecida como profissional, porque o sistema dita isso, é um sistema machista. Mas também é um sistema racista, porque se uma menina branca fiz esse tipo de post profissionalmente, igual a mim, ela não vai ser julgada como eu sou julgada.”
Em busca de um Corpo Livre
Cansadas por não se encaixarem no padrão de corpo ideal propagado pela sociedade, as mulheres começaram a questioná-lo, e como consequência dessa oposição a opressão foram surgindo os movimentos de auto aceitação corporal, entre eles o movimento Corpo Livre. Intitulado no seu país de origem, Estados Unidos, como Body Positive, o movimento surgiu em 1996, com o intuito de incentivar as pessoas a desconstruírem os padrões estéticos e amarem seus corpos como são. Aqui no Brasil, o movimento se popularizou a partir de 2016, através da Jornalista, criadora de conteúdo e influencer Alexandra Gurgel.
A partir disso, o movimento foi ganhando notoriedade e outras mulheres passaram a apoiá-lo e propagá-lo, como aconteceu com a criadora de conteúdo Alessandra, que diz ter conhecido um pouco antes de criar sua página no Instagram. “Eu conheci [o Body Positive] pouco antes de começar com a página e eu me senti representada e forte, a representatividade tem isso de você se sentir forte”.

Criadora de conteúdo Alessandra Rameth — Fotos: Instagram/Reprodução
Já Juliana relata que o movimento já estava nela antes mesmo de ter a proporção que tem hoje, mas somente em 2017, após sair do relacionamento que a mantinha em um ambiente constrangedor, foi que passou se interessar mais sobre o tema.
A psicóloga Flávia Lins ressalta os benefícios dessa autoaceitação. “Fazer as pazes com o corpo é fazer as pazes com a sua história. Quando isso acontece é como se um peso fosse retirado da vida e das costas, não é um processo fácil e talvez também não seja rápido, mas o resultado é uma vida com menos autocrítica, auto punição, é possível estabelecer limites nas relações, ser mais assertivo e mais autoconfiante”.
Alessandra Rameth ainda acrescenta outros benefícios. “Antes eu não queria falar sobre meu corpo e nem tinha afeto. Hoje muita coisa mudou, eu me vejo e me reconheço como uma mulher gorda e tenho muito orgulho da minha trajetória.”
É preciso ressaltar que aceitar seu corpo, principalmente quando ele é gordo, não é uma glamourização dos maus hábitos, como afirma a nutricionista especialista em clínica, saúde mental e comportamento alimentar Luana Galdino. “A gente não glamouriza o fato de aceitar o corpo e ficar acomodado sem cuidar da sua saúde, e sim no sentido de aceite seu corpo, cultive amor próprio e busque saúde para ele, independentemente do tamanho que ele tenha”.
Portanto, aceitação corporal e amor próprio só trazem benefícios, tanto físicos como mentais, como afirma a nutricionista Luana Galdino: “se a gente busca diariamente cultivar esse amor próprio, acolhendo as insatisfações, começamos a ter atitudes mais positivas com relação ao nosso corpo, por consequência vamos cuidar mais na nossa saúde”.

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