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Transexualidade e política: um grito por igualdade e respeito

  • Foto do escritor: Luanne Ribeiro
    Luanne Ribeiro
  • 24 de nov. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 7 de dez. de 2020

O portal Dandaras entrevistou a candidata a vereadora Ariane Senna para falar sobre a representatividade trans no ambiente político soteropolitano


Ariane Senna é uma das 12 candidatas (os) trans que estão concorrendo as Eleições Municipais de 2020 na Bahia — Foto: Divulgação



Desde 2018, pessoas transexuais, transgêneros e travestis receberam a permissão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de disputarem eleições nacionais ou municipais em cotas destinadas aos gêneros com os quais se identificam. Após dois anos, 2020 marcará a primeira vez onde candidatos e candidatas trans poderão ter o nome social na urna eletrônica em todo Brasil. Essa conquista permite que aqueles que não se identificam com o gênero designado no seu nascimento, possam concorrer a cargos eletivos utilizando o nome pelo qual preferem ser reconhecidos (as) e a comunidade onde vivem os conhece.

A fim de comentar sobre essa realidade, o portal Dandaras entrevistou a candidata a vereadora Ariane Senna para falar sobre a representatividade trans na política soteropolitana, uma vez que neste ano a Bahia terá o terceiro maior número de candidaturas com nome social no país, possuindo 12 candidatos (as). Além do currículo no âmbito político, Ariane Senna foi​ a​ primeira mulher transexual a se formar em Psicologia na cidade de Salvador.


Luanne Ribeiro: Quando você sentiu a necessidade de representar na política baiana a classe transexual? Como foi esse processo?

Ariane Senna: Entendo-me representando mulheres trans e travestis politicamente, desde os treze anos de idade, momento em que fui expulsa de casa pelos familiares devido a transfobia. A partir desse momento, vivi dos treze aos dezessete na prostituição. Aos dezoito anos, iniciei minha busca por adentrar no mercado de trabalho formal, a persistir nos estudos e anos depois, em 2014, comecei a participar de eventos de movimentos sociais e a pedir os microfones para falar de minhas dores, minhas pautas, que é também as mesmas vivenciadas por muitas mulheres trans e travestis. Minha voz ecoou lugares que me fez trabalhar como educadora social (Instituição Beneficente Conceição Macêdo), educadora social e redutora de danos (Centros de Estudos de Abuso de Álcool e outras Drogas- Cetad/UFBA) e por diversos grupos de movimentos sociais como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais-ANTRA, na qual fui secretária de juventude, e no Conselho Estadual dos Direitos da População LGBT do Estado da Bahia no qual eu fui vice-presidenta na gestão de 2017. Toda essa experiência me mostrou que não bastava apenas ser membra de movimentos e conselhos, em gritar sobre nossas pautas e reivindicações para o Estado. Fui percebendo que a disputa precisa ocorrer dentro dos cenários de espaços de decisões e poder. Por isso, aqui estou.


Luanne Ribeiro: Como a população soteropolitana vêm aceitando e apoiando sua decisão a candidatura de vereadora da Câmera Municipal de Salvador, tendo em vista que este é um ambiente majoritariamente dominado por homens cis e que muitas vezes são instruídos pelo preconceito estrutural?

Ariane Senna: Não está sendo fácil. São buscas diárias e momentâneas por visibilidade, por não me deixar ser silenciada e pela busca de recursos (financeiro e humanos) para me manter na disputa. Está sendo o momento de poder conviver de perto com a transfobia estrutural onde vemos os que diriam estar conosco largar nossas mãos, onde os que dizem que estão comigo estar, mas não assumir verdadeiramente o compromisso disso, e tantas outras tensões que, felizmente, já imaginava e me preparava para vivenciar.


Ariane Senna foi a primeira mulher trans a se formar em Psicologia na capital baiana — Foto: Reprodução Acesse Política / Assessoria


Luanne Ribeiro: Diferentemente dos anos anteriores, nas eleições deste ano, doze candidatas transexuais poderão ir às urnas da Bahia protocoladas com seu nome social. Como você se sente com essa conquista de ser reconhecida da forma que você se enxerga e reconhece?

Ariane Ribeiro: Sinto-me aliviada em ter retificado o meu nome e gênero em 2014 pois assim tenho colocado apenas como exigência o cumprimento da lei para todas e quaisquer movimentações e sistemas que possam a vir desejar colocar em xeque a minha “mulheridade”.


Luanne Ribeiro: Uma política voltada para igualdade de direitos e deveres, independente do gênero, é possível? Para você, como poderia chegar a este ponto?

Ariane Senna: Sim. Eu acredito nisso e quero continuar acreditando. É isso que me move até aqui. É essa a minha luta. Portanto, acreditar é preciso. Para chegar a este ponto, é preciso que possamos fazer a nossa parte em acreditar em votar e ser votada naqueles e naquelas que acreditamos estar nessa luta. É preciso nos organizarmos, nos reencantarmos pela política para salvar e plantar o mundo que queremos ter. A diversidade sexual e de gênero faz parte desse mundo. Apenas com ela no poder, teremos possibilidades reais de trabalharmos para a efetivação de uma sociedade mais justa e democrática, consequentemente diminuindo o número de assassinatos e violências contra aqueles e aquelas odiados historicamente, devido a um padrão normalizador.


Luanne Ribeiro: Para você, como é representar este grupo que até pouco tempo não tinha voz, nem lugar de fala na sociedade brasileira como um todo?

Ariane Senna: É uma responsabilidade muito grande porque assumo o lugar da boneca que está na vitrine para toda a sociedade ver, aplaudir, agradecer, negar e repudiar. Então, acabo recebendo toda essa carga em que muitas vezes é consequência de não apenas minhas ações, mas de tudo o que representamos em sociedade. Coisas boas e ruins, boas e más. É estar em um local de ter que ficar constantemente conscientizando não só as pessoas cisgênas e heterossexuais mas também as transgêneras e homossexuais.


Ariane Senna apoia a bandeira dos Direitos Humanos, LGBTQIA+ e dos negros, além da defesa das mulheres e do combate à intolerância religiosa — Foto: Reprodução Último Segundo


Luanne Ribeiro: O que você diria para outras pessoas que assim como você seriam capazes de fazer a mudança na história da política soteropolitana, baiana e brasileira?

Ariane Senna: Que acreditem nos seus ideais, que sejam primeiramente verdadeiras e verdadeiros consigo mesmos, com o que pensa e com o que vive. A partir disso, transformem todos esses conteúdos em possibilidades de alcançar mais pessoas a estarem conectados com os mesmos ideais. É isso que tenho feito e isso é libertador, porque sendo eleita ou não, já poderei sentir o gosto da vitória, a vitória política de poder ter contribuído para levantar vozes historicamente subalternizadas, por ter levantado minha própria voz, por ter dado oportunidades de escolha para todas e todos. É isso que precisamos ter e levar para as pessoas: oportunidades, transformação, possibilidades e representatividade para que cada vez mais as pessoas venham a se sentir vivas e com possibilidades de escolhas, enxergando sempre saídas para onde imaginava não encontrar. É sobre esperanças.


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